Mãe é quem cria: conheça três histórias de famílias formadas por meio da adoção

Mãe é quem cria: conheça três histórias de famílias formadas por meio da adoção

No dia 25 de maio comemorou-se o Dia Nacional da Adoção. Mas comemorar talvez ainda não seja a palavra certa. Conforme os últimos números divulgados pelo Cadastro Nacional de Adoção (CNA), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), atualmente existem 45.991 pessoas interessadas em adotar e 9.524 crianças e adolescentes aptos para ser adotados.

Conheça um pouco a história de três famílias que abriram a casa e o coração para a adoção.

Os filhos perdidos de Karoline e Jonathan

Quando conversavam sobre aumentar a família, a possibilidade da adoção sempre foi algo muito claro na vida do casal Karoline Fernandes Pinto, 37 anos, e Jonathan Roloff, 35.  Após muitos anos juntos, a jornalista e o empresário começaram a dar início aos procedimentos para engravidar, pois sempre tiveram a certeza de que queriam um filho biológico e outro por meio de adoção. Após um ano e meio de tentativas e a gestação não acontecendo, foram encaminhados a uma clínica de fertilização.

– Decidimos que não entraríamos nessa jornada de tratamento, induções e tentativas que nem sempre são bem-sucedidas. Como nosso sonho de adotar já existia, começamos a pesquisar sobre mais sobre como proceder. E aquele desejo que já existia e não era um plano B para nós, seria então, quem sabe, a única possibilidade.

Todo o processo da papelada e entrevistas durou cerca de um ano. Durante esse período, o casal participou de diversos grupos presenciais e virtuais onde foram conhecendo pessoas e suas histórias. E o que era inicialmente a ideia – optar por uma criança de zero a três anos – mudou.

– Aquilo que sempre reclamamos sobre a burocracia, na verdade, se faz necessária. Hoje o que vemos nas filas de adoção, são, em maioria, pais querendo uma criança branca, recém-nascida, perfeita. Aquela do “comercial de margarina”. Mas a realidade nos abrigos hoje é totalmente diferente, são crianças, geralmente grupos de irmãos, negras e mais velhas, à espera de um lar. A burocracia é importante para esgotar todas as chances dessa criança ser rejeitada ao chegar no novo lar, pois a adoção vai além de encontrar crianças para os pais. A premissa da adoção é encontrar pais para essas crianças.

Quando o telefone tocou em agosto de 2018 a família de Karoline e Jonathan se formou com a chegada dos três irmãos: Ana Vitória, 12 anos, Tales, seis, e Maria Eduarda, cinco.

– A gente sabia que quando o telefone tocasse seriam os nossos filhos. Muito se fala no meio adotivo que Deus não dá filho trocado, ele trata de reencaminhar de volta para casa os filhos que por um tempo estiveram perdidos por aí. Não conseguimos olhar para trás e lembrar como era a vida sem as crianças. Parece que ela não existe muito, que sempre foi por eles, esperando por eles. E apesar de todas as mudanças e de toda a correria, o que vale é a certeza que essa é a nossa família. A família mais maravilhosa que a gente poderia ter – diz Karoline.

– Hoje eu milito a favor da doação, ajudo pais a (re)encontrarem seus filhos e acima de tudo ressalto a eles que não existe demora quando a gente abre a casa e o coração para o amor.

O “reencontro” dos pais com João Francisco 

Uma linda casa, um marido amoroso e um bom emprego. Essa era a realidade de Gilvânia Banker, 48 anos, quando descobriu a primeira gestação, em 2008. Ela sempre acalentou a ideia de ser mãe e era chegada a hora. No entanto, infelizmente, 30 dias após descobrir a gravidez, a jornalista sofreu um aborto espontâneo.

– A cirurgia de curetagem é realizada no mesmo local onde nascem os bebês. Ver mães passando com seus enormes barrigões para sala de cirurgia e ouvir o chorinho de crianças é algo que destrói o coração de uma mulher que não teve a mesma felicidade e vai entrar na mesma sala para retirar o bebê que não pode permanecer na sua vida.

Certa de que não desistiria de seu sonho, procurou ajuda médica. Após muitos exames e mais três tentativas frustradas de engravidar, decidiu pela adoção.

– Todos me perguntavam quando eu engravidaria de novo. Isso me dava pânico. Pois só quem passa por uma perda, sabe a dor que é. Mas foi aí que comecei a pensar diferente. O que eu realmente queria? Ser mãe ou engravidar? Então, em 2012, entramos com o pedido de adoção e passei a acalentar o meu sonho de ser mãe, novamente.

O processo de a adoção, desde a entrada dos papéis, as entrevistas, até as visitas da assistente social levou um ano. Um período de troca de telefonemas, paciência e muita espera.

 – Um dia, cansada de esperar, pensei em desistir. Afinal, a vida já estava encaminhada mesmo. Tudo estava bem. Foi então que sonhei com um menino me abraçando e dizendo: “mãe, não me deixa”. Acordei em lágrimas e com uma estranha sensação de que jamais poderia abandonar essa ideia, pois meu filho já havia nascido e estava em algum lugar me esperando.

Em 2018, enfim, o telefone tocou. No outro lado da linha, ouviu a voz da assistente social dando a notícia tão esperada de que havia um menino, de três anos e meio, aguardando pela família.

– Chegou o dia tão sonhado. Uma longa, muito longa, espera! Finalmente ia ser mãe. Me sentia grávida! No dia 19 de fevereiro de 2018, eu vi o rostinho do meu filho e senti seu abraço, pela primeira vez. A hora que ele entrou na porta, vindo pelas mãos da cuidadora, ele gritou: “papai”! Como se fosse um verdadeiro reencontro! Meu esposo ficou tomado de um sentimento estranho, uma emoção que ele ainda hoje não consegue definir. Logo depois eu ouvi: mamãe! Por alguns instantes eu me perguntei: eu ouvi isso mesmo? Ele me chamou de mamãe?

Do dia em que se conheceram até o casal levar seu filho definitivamente para casa foram apenas seis dias, mas para os pais, ansiosos, parecia uma eternidade.

– Enfim, estávamos em casa com nosso filho. Nosso João Francisco. Um filho sempre mexe com a estrutura e a vida de qualquer pessoa. E um filho adotivo ainda mais, pois ele já traz uma bagagem de vida, seus medos, seus fantasmas. Nosso filho tinha alguns que, vez ou outra, ainda aparecem. Mas o amor cura todas as feridas e apaga todas as experiências negativas. Sempre apostamos nisso e ele hoje, após um ano, tem nos demonstrado a força do amor. Ele é uma criança doce e feliz que trouxe a alegria para toda a nossa família.

“Adotar era a nossa missão”

 Situação parecida viveu a administradora de empresas Clarice Londero, 40 anos.
Após várias tentativas de engravidar sem sucesso, optou pela adoção, desejo que já dividia com o marido, Fernando Arndt, 41 anos.

– Eu sempre sonhei em ter filhos biológicos e adotar outro. Hoje brinco que quando rezava e pedia isso, “papai do Céu” ouviu só a segunda parte (risos), pois essa com certeza era nossa missão aqui.

Diagnosticada com endometriose, doença que atinge cerca de 15% das mulheres e dificulta a gravidez, Clarice e Fernando decidiram entrar na fila da adoção, processo que durou três anos e meio, até que duas irmãs apareceram na vida do casal.

Para eles, que pensavam em uma criança de até cinco anos, para poderem passar por algumas etapas do filho, como acompanhar o crescimento, a chegada das meninas que tinham na época sete e 10 anos foi uma grata surpresa.

Através do projeto Missão e Diversão, criado pela adolescente Marcela Bertolucci, o casal participou de duas edições do encontro que tem como objetivo aproximar e sensibilizar casais na fila de espera com acima de sete anos.

– Nesse mesmo período o Juizado criou o aplicativo da adoção para ligar pais e crianças, e nesse aplicativo eles gravavam os depoimentos delas com voluntários e fomos convidados para participar de uma gravação. Nesse dia conhecemos as meninas, hoje nossas filhas. Posso dizer que foi amor à primeira vista, pois nos olhamos e já sentimos algo diferente por elas.

Após manifestar ao Fórum o interesse pelas meninas e passar pelo processo natural de adoção (respeito a fila, adaptação, etc), o casal não estava mais sozinho. As meninas Karoline e Kauana formavam agora a nova família.

– Fernando e eu passamos 16 anos sozinhos e agora elas chegaram para dar sentido à nossa existência. Mas claro, não é fácil, assim como em toda maternidade. São duas crianças que mudam totalmente a nossa vida. Ainda mais no caso delas, elas já têm uma bagagem de ouvir muitos “nãos”, foram negligenciadas de alguma forma na vida. O fato de a gente poder mudar esse significado para elas, de família, da palavra amar, mostrar a elas que elas podem ser amadas e respeitadas e que elas têm direitos como qualquer outra criança, é fantástico.

Entenda o processo de adoção

Quem pode adotar?

Maiores de idade, solteiras ou casadas e de qualquer orientação sexual ou condição socioeconômica, desde que haja uma diferença etária de, no mínimo, dezesseis anos de idade entre o adotante e o adotando. Ressalta-se que a condição financeira não é um fator determinante para decidir se um pretendente pode ou não se habilitar; o que se avalia são se estes pretendentes terão condições de assegurar os direitos básicos de uma criança ou de um adolescente.

Como é o procedimento para entrar na fila de adoção?

Para que possa realizar uma adoção, é necessário que esteja habilitada no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). A habilitação deve ser feita no Juizado da Infância e Juventude de sua cidade ou comarca. Para mais informações é importante procurar o Foro de sua Comarca, ou no caso de residir em Porto Alegre, o Foro Central I.

 Quanto tempo, em média,  pode durar o processo de adoção?

O prazo máximo para conclusão da habilitação à adoção é 120 (cento e vinte) dias, prorrogável por igual período, mediante decisão fundamentada da autoridade judiciária. Mas, o tempo de espera entre a conclusão do processo de habilitação para a adoção e o início efetivo do processo de adoção é muito variável. Isso porque dependerá tanto do perfil desejado pelos pretendentes quanto do perfil das crianças e adolescentes disponíveis à adoção.

Existe um custo para entrar na fila da adoção?

 A adoção do brasil é gratuita, não havendo qualquer custo para se ingressar com o processo de habilitação ou de adoção.

Fonte: Coordenadoria da Infância e Juventude do RS

Vanessa Martini é mãe do Theo e jornalista. Tem um blog, o Mãezinha Vai Com As Outras, onde divida a rotina e os aprendizados da maternidade. Escreve semanalmente sobre o assunto emrevistadonna.com.